Ensaios

Não se viam há 4 meses. Ela quase não lembrava do rosto dele. Não apenas não se viam como também não se falavam com frequencia. E não se sentia falta de ninguém.

Heloísa se importava com outras coisas: dragões alados e agitados modificaram a temperatura do seu corpo. Calixto havia feito uma linga viagem pela África em busca de si mesmo. Por coincidência ou sincronicidade, a cidade se esvaziou e quando menos se esperava, tudo ficou ao léu.

Logo ali, por perto, a primeira cor que Agnes viu foi o rosa e todos os seus tons. Um cheiro conhecido se aproximou quando o primeiro raio surgia dando trégua à noite. Mag abriu os olhos e notou que a cama estava vazia. Não entendeu por que esteve tão agitada na noite anterior por isso preferiu ficar mais um pouco na cama e cochilar com a névoa flutuando pelo quarto. O céu anunciava mais um pouco de chuva quando José saiu de casa para andar um pouco de bicicleta. Tinha efeitos terapêuticos as dezenas de minutos pedalados e regorjitados dentro de sim mesmo. Preferia estar em paz quando o amor chegasse mesmo que isso influenciasse suas doenças de cabeça.

Mesmo desnorteada pelo que não valia a pena, Heloísa resolveu dar seu braço a torcer e passou a torcer pela vitória do esquecimento. Tirou um pouco dos milhares de valores das caixas abandonadas pelos cantos do quarto e domou alguns de seus dragões. Os preferidos permaneceram guardados. Mal notou quando os dois passaram por ela ao subir as escadas do velho hotel. Ela, de olhos vidrados, permanceu incrédula durante o êxtase. Ele, de mãos cerradas, permanecia imóvel diante das horas contadas. A contagem do momento e a angústia das horas que não chegam contornam as páginas lidas pela terceira vez do velho livro, companheiro de várias espera. Calixto prometia a si mesmo, esquecer o livro na próxima viagem. Repetir as mesmas palavras nunca foi um desafio a ele.

Ela ficou muito preocupada com as várias coisas do seu dia. Foi perdendo de vista os antigos motivos e suas emoções já estavam sob o controle até ali. Achou outras fontes, outras feitiçarias.

Mag abriu novamente os olhos e ainda não acreditava como poderia ter bebido tanto. Sentia um milhão de mãos empurrando-a para a cama e o cansaço parecia-lhe mais desencantado do que nunca. José mais uma vez acorda Mag e ela promete a si mesma acertar na escolha da próxima vez. Hábitos saudáveis nunca valeu a pena a ela, sempre preferiu a noite que as longas horas ao ar livre de José.

Enquanto isso, Heloísa e Calixto programam o próximo encontro visualizando que haverá uma brecha entre as semanas e os feriados. Lutam contra a distancia e o abandono da vida a dois.

 

 

 

Há muito tempo não se via Agnes. A sala cheia de cantos já se tornou uma lembrança velha e descolorida dentro de si mesma. Tantas lembranças, que Agnes sente-se como um cemitério de memórias ambulantes em estado de decomposição. Lembranças perdidas, corroídas pelo passar de todas as horas que foram presenteadas.

Agnes atravessa agora um grande rio de águas pesadas. Ouve algumas vozes, algumas até lhe parecem velhas conhecidas, mas ela está afundada em seus pensamentos, em seus próprios rios.

Agnes quer saber de onde vêm as luzes que vira na noite passada quando sonhava de olhos abertos. Era um canto na praia que tinha o nome de algo que não conhecia, onde árvores alojavam santas e seres de tamanhos estranhos. Novamente ela repete o movimento das árvores que dançavam enquanto cabeças estavam enterradas. As fitas de cetim eram apenas uma vaga lembrança de um acontecimento que agora se repetia com uma roupa diferente, uma ilusão sem compasso. Milan Kundera sempre está certo, quando do eterno retorno a teoria se transforma em prática sem pudores.

Mas enquanto o barco vai rompendo o rio e todos vão se distraindo nas conversas latejantes, Agnes se esforça para em algum momento acessar as lembranças da noite passada. Em algum momento ela reconhece o olhar das coisas na mulher em seu vestido vermelho de bolinhas brancas.

Em outro momento soube exatamente o motivo de todo aquele correr do tempo. E se viu invadida de um medo familiar, uma angústia sem razão porque sabe que em todas as mulheres que correm livres pela praia em plena lua cheia, em cada uma mora o infinito de amar e a loucura da entrega fugaz e insana.

Ele era negro, mas era esguio, se alongava para o alto em busca de qualquer Marte escondido nas milhares de viagens orgânicas que afloraram no instante real. Agnes sabe que o sol se negaria a surgir se continuasse a sentir aquele medo porque o que  reconhece no olhar da mulher em seu vestido vermelho é o que está dentro de si mesma, é o que dá forma aos trajetos de vidas passadas: é o encontro.

Agnes… Esse nome que há tempos povoa o imaginário real. Cacos enluarados e seus números; Platão, espera e invenções nas primeiras chuvas; os casulos na porta da primavera; a espera e sua espreita calada; os perigos da doçura quando é lua nova e a revoada que celebra a libertinagem solitária. Tudo não passa do ensaio que antecede o parto. A a mente se torna mais inquieta, mas inquestionavelmente essa é a essência.
       De onde vinha a luz? Era tudo absurdamente intenso. O olhar, a mulher que se recusava, que levitava enquanto corria sobre os quebrantes da água prateada.

Agnes não sabe de quem sente mais medo: do homem que dançava para cima num movimento feminino implícito ou daquela mulher que lembrava o que havia sido em outros momentos. Mas era tão doce o olhar dela, lembrava uma certa inocência que alguém esqueceu de acalentar. No fundo de certas coisas, Agnes sabe que o que faltou ao mundo foi a eternidade do acalento antes de dormir. As crianças então ficaram vagando insones dentro dos homens, das mulheres, das coisas na casa, nos móveis que povoam a memória de quando se é apenas pequeno.

Agnes pode até enxergar todos os bichos peludos mas não é em vão a intenção de buscar o belo, o inofensivo. Lançar ao vento versos de poemas alados e eternos.

Enquanto o barco avança pelo grande rio de águas pesadas ela vai alojando as areias daquela sensação. Agnes sabe que certas texturas das lembranças da mente são para preencher os espaços nas paredes da morada de cor lilás. E mesmo existindo o medo, ela sabe que os alquimistas são pacíficos, despidos de paixões. Talvez ela saiba que em outro momento tenha sido um deles e que acessar agora, cada um dos rostos, significa se assustar; e que tocar a presença significa cair e sentir o chão; e a recusa do sonho é a dor no peito que apenas quer dizer que o amor existe ao redor das coisas sem importância, que o que se vê quase sempre é o que é.

O barco se aproxima agora de algum abarrancado de novidades. Agnes respira fundo imaginando os novos trajetos que a aguardam. Um pouco de desânimo e mais algumas paredes para concertar com cimento as rachaduras azuladas, porque um vazio rápido e infalível vai correndo pela casa, cômodo a cômodo. Agnes conhece essa tipicidade, das peles quando se encontram, de inundar, transbordar, trincando as estruturas que sobreviveram às salas de mil cantos, às margaridas de azul intenso, às casa de janelas amplas. Esse algo típico é passivo de transmutação, de uma espécie de suavidade que não se deixa endurecer jamais, por mais que os silêncios das despedidas dos amantes seja aquilo que Agnes já saiba qual cor tem, qual emoção suporta.

Já em terra firme, Agnes segue o fluxo mata adentro. São tambores e danças anunciando vibrações em todos os sete pontos de energia. Não existe nenhum segundo ali que sinalize onde ela está: os relógios pararam e o tempo confundiu todas as noções numa insanidade de leveza intangível.

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