Amanheci inundada de sereno e ainda naufragada de estrelas que caíram sem eu ter feito pedidos. Ignorei meus equívocos e segui adiante estalando com raiva, as respostas que não dei. Também sofro com respostas caladas e injustas, mas sigo com fé que o amor é coisa pra dar e pra manter, embora eu nem sempre saiba fazer isso numa ordem sã. Qualquer negação de gentileza para mim é como um soco no meio das minhas costas, como o corte que sofri há quatro anos. Sinceramente, jamais saberei fechá-lo, não adianta me cobrar isso.

Nunca fui boa de pontaria, sempre acessei as coisas pelas beiradas, resquícios de uma vida antes daqui, cheia de infortúnios premeditados por um mundo enlouquecido. E eu enlouqueci junto com ele, é minha parte nesse negócio. Quando é que aprenderei a despistar seres hostis? Até quando terei de ser fábrica de defensivos para combater dureza e falta de cuidado com meus sentimentos? Quero outra saída que não seja explosões e ódio. Quero outra maneira de crescimento. Chega, alma! Você já provou que é capaz de aceitar desafios. Chega de pedir grandes testes, é quase primavera e mais uma vez, a semente precisa romper o sono.

Mas, se for preciso, bolarei planos infalíveis novamente. Talvez ainda seja preciso manipular meu próprio veneno para me proteger de pensamentos rígidos, de posturas inflexíveis, de controle sobre meu corpo e minhas opiniões. Mereço respeito pelas coisas já vividas. E aviso: há de se ter muita força para vencer minha força. Há de se ter muita coragem para enfrentar minha coragem. E há de se ter muito amor para perceber meu amor. Há de se sentir uma paixão louca, uma entrega absoluta para sentir minha paixão de perto.

E escuta.

Por mais que se faça pedidos à estrelas cadentes, elas nunca se repetem no céu. Não há uma só entre elas que voltam.

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Para quando o inverno chegar

quando chegar o inverno, 
 quero dormir ao relento.

inverter as horas 
 é uma questão de marcar o tempo.

não escreveria sobre o destino das horas 
 há um certo cansaço e os dedos doem.

mas o que seria das mãos 
 se não houvesse a linha?

quero deixar de pensar 
 tornar-me adormecida 
 nem um beijo para salvar-me.

quero rasgar o vestido no leito sonâmbulo.
ao menos, poderia andar e correr 
lá pelo final da estrada,
rastejar, comendo terra.

quando esse findar chegar 
 acordar misturada às margaridas de azul intenso
olhar pela janela do quarto 
 e relembrar a infância.

talvez descobrir o porto seguro
que me assegure no plano comum.

enquanto isso, quem sabe, pedir ao amor 
 que me esquente entre linhas e fundos 
 tornar as coisas mais perto.

Aguaceiro (barragem rompida)

 

no aguaceiro da lua cheia

deságuo

e é sem volta

 

sem remédios

finalizei o verão

como quem encerra um ciclo

 

na contagem dos frutos

é mais provável

que eu decomponha

 

mistérios não me salvam

rezo para a dor cessar

libero minhas águas

 

é sem fim:

a dor de quem sente falta

e nada é controlável

 

só resta o estrago

de um peito vazio.

 

 

chuva

 

chuva
cigarras
frutas no quintal
terra molhada
pássaros
beija-flor
verde
morte
vida
poesia
música
frio na pele
vento úmido
cheiro gostoso
a percepção do sol
o verdadeiro sol
canto de todos os seres ao mesmo tempo
a vida secreta das coisas

inundações, perdas e primavera

do destino de uma hora fatal
ecoam os sussurros
da memória das folhas
pisadas num caminho
de silêncio e noite

durante a viagem
mora no chão
o rastro de uma cadente
que descortina o verdadeiro sentido

minhas vidas são sequências
me encontro e me reencontro
prefiro o silêncio das plantas
encerro na pele cada estação.

quando a hora chegar
gravarei na memória
a abertura das asas ao sol
– findarei inundada de primavera.

“In-chuva-da” (sobre a janela chuvosa)

 

Chuva chegou

Quintal meu

Tão interno

Alagou-se.

Não deu goteira

Telhado marrom

Minha esperança

Alojou-se.

Chuva lavou

Flores no varal

A menina siriguela

Avermelhou-se.

Esfriou a casa

Quintal meu

Tão invernado

Alardeou-se.

 

poema da série

Libertinagem de revoadas solitárias

– pequeno ensaio que antecede o parto

escrito no Tocantins e em andanças durante a estação das águas do ano de 2007.)