avistamento

Em época de peles descobertas, o sertão torna-se fresco. Em frescas e libertas peles, surge uma inquietação e segredos são revelados. À luz da verdade, peles e corpos são como contadores de histórias sentados à sombra generosa de uma árvore rodeados de buscadores. – devoração de árvores -. Vento que sopra ao leste das peles, lendas da seca. Rezas de São Jorge, música do cavaleiro, vestígios de Veadeiros, heranças dos garimpeiros. Descobertas sob a influência do frio, danças e romarias, rezam as histórias de lá, que é o canto mais guardado do Cerrado. Céu mais estrelado ao alcance de qualquer visão. Dizem que correm as águas puras, – mandam notícias de gente da nova era -. Reza a lenda, e celebram as histórias, que o lugar chama tanto por seus salvadores como por seus destruidores.

Qual o caminho escolher?

Luas cheias e ganhos feitos através de perdas. Assim é a enluaração no Cerrado na passagem do ano encabulado de transtornos e crises. Devoração de árvores e peles escancaradas, corpos nus e mentes sonhadoras. Pelo “Planalto-alto” os sonhos se refazem – delicadeza é sonhar nesses tempos de chuva que cessa antes da hora, de água que seca no tempo errado e traz o veranico de más intenções dos senhores feudais. Assim é a usurpação do Cerrado na passagem de um tempo encabulado de ilusões que já não servem para nada.

Ao longe escuto o choro que nunca mais será retido. Também não serão retidos a dor embalsamada nem a dança dos corpos e das vontades. Constato que invernos podem enclausurar se a mente entristecer. Assim a enluaração faz encher o mato e os corpos. Assim faz a volta do sol, contamina de poeira o povo daqui. A enluaração renova as esperanças para aqueles que fluem em meio à crise de pensamento, de território, de rezos, de leis, de homens. Em tempos como os de agora, respiro, tento, respiro.

Corações aflitos e agoniados, corações apertados e congelados às 3 da tarde, enquanto o sol doura tudo ao redor, enquanto a dor não passa, enquanto a fé se renova misteriosamente.

Crio e recrio o dia em que o tempo parou para mim. Metade minha é espalhada, como as estrelas. Vivo mais depois, dia após dia, e em cada dia eu descubro mais mistérios. Absortos e livres pelo espaço, um dia seremos seres regidos pelo poder misterioso do amor. Assim, como numa queda, seremos sabotados pelo mistério, pelo futuro incerto. E nos erguerá, laboriosamente, o amor, de onde estivermos.

Cores continuarão a se espalhar pelo Cerrado, continuarão a mostrar a passagem do tempo através das estações, das águas, dos ventos, dos céus azuis e estrelados, das nuvens fartas, das naves nuvens e das árvores. Nuvens ancestrais, dos filhos de agora, de antes, de depois, das moças, dos avós.

Doces tardes que cada vez mais se abafam com os ponteiros apressados e o ritmo da devastação.

 

 

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