Carta 2

Uma carta para Antropos

… do alto do mar…

Querido Antropos,

Em algum lugar, quem saberá onde, haverá de nossas peles se encontrarem novamente e noites de respirações e sons profundos acalentarem nosso sono. Haverá em mim mais uma parte desse meu desejo, que de tão longe de se esgotar, me estremece e me molha.
Você deveria saber que há em mim uma saudade, uma abafação absurda, uma ânsia pelo cheiro, pela saliva, pela língua. Ainda sinto todas as texturas de nossas carnes se consumindo. Das noites em que durmo sufocada é que vêm a mim teus atos animais, tuas delícias infantis. E de tanta insanidade que vinha de tuas mãos que marcavam meu quadril, é que vem esses tremores de agora.
E por seus olhos serem desse castanho sem remédio, sem volta, é que vem esse desejo de ficar, essa loucura de abandonar o barco. Esse barco, que tem sido tão errante, sem vozes, flutuando em torno de qualquer coisa sem nome, mas por ser tão alado é que segue sempre em frente encantando todos os Deuses de chão de mar.
E por ser seu sexo o meu sexo, por ser algo que se mostra como um encontro, um êxtase que dói, é que ficam impregnados de arrepios todos os cantos do meu corpo.
Em algum lugar que não se sabe onde, mas sabido todos os segredos, haverá do nosso desejo queimar até o fim e de estático que será, translúcido e amoroso se tornará, vingando assim o sono que não se dormiu.
Querido, devo dizer que está ficando irritante essa sua presença que insiste em permanecer sorrindo pela casa e que minha voz se nega a ouvir. Sinto em todas as horas imbecis do dia tua língua gelando minha coluna. Eu, água e você, mergulho: um céu nublado que ecoa com distância através da memória do teu hálito no meu ouvido dizendo absurdos deliciosos.
Antropos, quero saber o que você vai fazer com a primeira madrugada que passei ao seu lado? Eu estava lá, de olhos abertos e dilatados, nua e distraída, gravando todos os detalhes da sua pele, seguindo com as pontas dos dedos as curvas do seu pescoço, as concavidades dos seus ombros. Eu acordava sem razão e demorava segundos delirantes para perceber quem era você e o que eu estava sonhando lá, na sua cama colorida. Era nesse instante que eu me dava conta de que sua natureza animal arrombava e libertava de mim qualquer coisa chamada selvagem. Isso era uma afronta ao meu equilíbrio e às minhas santas capas. Diga-me, o que vai fazer?
E por seu quadril ter sido de uma força buendía, cheio de solidão e desapego, é que me apagava a mente, paralisava o tempo e eu entendia finalmente o sentido da morte, do parar da respiração.
E dentro do meu íntimo êxtase, o seu tremor tão intruso me revelava a enorme distância que existe entre nossos corpos que não se exaurem em buscar pela face que um dia haverá de cessar nossas buscas, nossas urgências.
Nesse dia, espero que você esteja atento e admirado, haverá de ser um silêncio absurdamente belo.

Agnes   .. | .. Outubro de 2006

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