Outonal

Venho falando das estações desde o início. Ultimamente, nos dias que memorizaram as derradeiras chuvas no Planalto Central, mais ainda dos outonos. Ventos, cheiros, folhas que caem, cores se preparando para mudar, amores.

Sobre amores falarei abertamente (aproveito que ando destemida mesmo, me sentindo Maria Bonita) para assumir que amores se perdem ao vento quando se distrai com as reminiscências das águas.

Antes que cometa mais um pecado:

amores não acabam, mudam de forma.

Muda a forma de falar ao ouvido, de olhar o novo dia que rompeu o silêncio da cama vazia, da cama cheia de sonhos. Amores mudam como mudam as estações. Quer coisa mais linda que a primavera estourando suas flores? O urso que dormia ficou esquecido na caverna, já nem se vê mais a neve no topo da montanha.

Sobre os meus amores de outono: eles doem mas eles são deliciosos. Quero comer um pedaço deles toda manhã. Quero rir de seus braços magros e compridos, seus pés tortos, seus cabelos brancos, suas barbas brancas, seus dedos marcados das cordas de violão que arrebentaram, das suas viagens. Eles me fazem abrir janelas, me fazem inventar receitas malucas de café, no fim do dia mudam de idéia, me mandam calar a boca, ter certeza das coisas. Logo eu! Ar! Fita ao vento. Por causa deles é que às vezes congelo minha mão no meio da estrada, todas as árvores esperando pelo adeus, pelo olhar de que espero você o tempo que for preciso.

Meu amores, os últimos, doeram. Mas quero sentir o cheirinho deles debaixo das minhas saias, entre minhas pernas, no meio daquele livro que líamos juntos, no solo de guitarra distorcida de trás pra frente. Como me doeu aquela frase no começo da tarde! Como apertou o estômago você tão perto e tão longe, as horas que se arrastavam ao som do Clube da Esquina. Como partiu o coração ver ir embora sem dar chance ao sentimento no meio da garganta, pronto pra sair pela boca, sair do baú encabulado.

Dói mais manter-se aberta do que fechar-se no casulo quentinho cheio de cores lindas, lã para manta, músicas folks, sabores, chás e poesias. Dói mais ainda porque é outono, época de perder mesmo, de preparar-se para cicatrizar e logo mais, um novo broto de amor aparecer.

Dói, mas digo que hoje amanheci Maria Bonita demais. Digo que sou aquela com fé, coragem e beleza. Digo aos marinheiros, aos pescadores, aos navegantes que sou da estirpe dos que são amor da cabeça aos pés. Viva Novos Baianos, viva Maria, viva Bill Callahan!  Digo que é hora de fechar ainda, continuarei louca pra amar e doer, amar e amar. O medo não vencerá o amor jamais.

Viva os amores de outono que ensinam a perder e a ganhar. Perder a forma de um amor, ganhar um outro logo ali na curva da Saturno. Olha eu no barranco do mundo esperando você, meu amor. Olha eu ganhando o mundo, eternizando o brilho eterno da minha mente que já não se lembra mais do rosto.

Hoje ganhei uma nova forma, um novo amor.  Tão bom ver o brilho dos olhos. Tão bom sentir as mãos.

Quero amor novo, quero amor velho, quero amor, qualquer que seja a forma.

“Quero crer que o amor não se esquece de começar.”

*Carpinejar

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2 comentários sobre “Outonal

  1. E de amor em amor, e de amar em há mar, o outono segue ajudando-nos a perder, a ganhar, a tecer, a chorar sem sofrer e se dar. Amor é tudo o que existe, o resto são folhas caídas da estação. Amem(os)!

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