O Pouso

O pouso, a casa, o cerrado…

O recobrar da memória despertado pela estrada…

Como numa música interminável, recobro minha memória. Aos quase 30 anos, filha de duas terras diferentes, planejei no fim da seca minha retirada do norte. Finzinho de seca, a primeira enxurrada escorrendo pelas serras, infiltrando o chão, acalmando o desejo quente, alardeando os corações famintos, as sementes de logo mais.

Encerrando as estações do Norte,  meu olhar esteve atento nos derradeiros dias no vilarejo. O rastro das palavras sussurradas ao ouvido, as horas noturnas onde cantam os pássaros e florescem as flores de odores pertubados: revoadas de fitas de cetim no céu do estio. Dia passado, as ruas ainda mostravam os esforços da chuva para apagar o fogo, lavar o lugar e eu ali, sorrindo e chorando por causa da beleza toda que me inunda num sem descanso da poesia em mim. Como numa música de Yann Tiersen, meu olhar se dissolve pelo céu, com o vento, pela chuva.

Fui deixando o lugarejo da minha calma, olhando para trás e largando minhas infinitas emoções, meus sentimentos guardados no baú de minha feminice – meus laços de chita, minhas butijas, minhas xícaras, meus chás e meus silêncio. Tudo impregnando minha memória, minha essência. Meu lugarejo amado onde as flores reinam, onde as frutas refrescam, onde eu parei tantas vezes para tomar benção de tantas mulheres mais velhas que eu, de tantos senhores de respeito. Meu lugarejo que me pariu entre terra e estrela, entre água e seca, entre vento e mormaços. Meu lugarejo com meus gatos, minhas linhas, meus poemas e meu fabuloso tear, meu doce tear.

Vou deixando para trás meus amores, meus incansáveis amores, minhas paixões. Dou adeus a eles através de Antropos. Adeus, meu Antropos, insistente amante, insone amor, cansado homem de guerras e orgias interplanetárias. Afago suas mãos enquanto entras no sono profundo que te prometi e agora cumpro com a alma e os olhos inundados de nostalgia. Nostalgia de nós, nostalgia de mim, nostalgia das estrelas que me guiaram junto ao seu corpo cheio de histórias.

Agora vislumbro o pouso, a casa, o cerrado. Sinto o cheiro daquilo que sempre vislumbrei que chegaria.

Barulho de gente, de dança ao longe por entre as mangueiras frondosas e o cantar das cigarras cessa o entardecer no cerrado do Tocantins. Casas entre as deformações do chão, ponta de morro no horizonte. O olhar da primavera me vigia para o grande salto rumo ao infinito meu. No intervalos, beijo a boca da liberdade.

Respiro fundo, fecho os olhos e abro os braços.

Sempre tive asas.

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2 comentários sobre “O Pouso

  1. Estou encantada com seus textos, principalmente com “O Pouso”, são palavras suaves e profundas. Também tenho um Antropos, mas a minha diferença é que estamos amando um ao outro intensamente, e construindo uma vida a dois. Em algum lugar espero que você seja muito feliz e siga com muita paz na sua nova jornada!

    Amante da Natureza,

    Vanuza Brosiguini

  2. Estou encantada com seus textos, principalmente com “O Pouso”, são palavras suaves e profundas… Parabéns, tem uma forma de expressar seus pensamentos com muita intensidade e paixão. Em algum lugar onde você estiver, espero que você seja muito feliz e siga com muita paz na sua nova jornada!

    Sou Amante da Natureza,

    Vanuza Brosiguini

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