Giras, flores longínquas, aberturas planetárias e o guerreiro dorme.

c81a37f45d4b66bdcde99729cba42e25

Inesperadamente a face voltou a vislumbrar o sorriso do caos.  Sexta-feira de giras e  ao fim do último momento não saberia qual é o destino dos desejos. Coisas com suas mãos pequenas tentam tocar o centro das minhas costas e novamente abismos me puxam para o salto. Lá embaixo a luz, teimosia da escuridão, espera porque quer acalentar aquele que  ousar pular.

Giras e versos populares. Tudo é muito antigo em relação ao que já vivi. Não é possível que não haja dois minutos de descanso entre uma chuva e um dia de sol.  Não há tempo para nos desdobrarmos sobre os mistérios da vida. Não é possível. Mas volto a dizer, tudo é muito antigo.

Enquanto isso, ele cuida de suas flores na varanda apertada do seu apartamento misturado com os barulhos da rua enquanto é madrugada e a parede não suporta mais as marcas da contagem das guerras que perdera ao longo dos seus poucos anos já vividos. Tão novo e tão velho dentro seu apartamento. E aqui no alto do cerrado, as preces não são as mesmas assim como as flores, tão mais selvagens que as flores daí.

Em outro canto da cidade, ela arruma as roupas que ele não mais usará. Fotos, incensos, livros e pequenos objetos. Tudo sem utilidade pois ele não está mais na casa: partiu e agora descansa. Partiu e agora inicia outra viagem. Coisa bonita foi aquela de se preparar para a morte, de entender a morte – coisa que ninguém faz.

O guerreiro agora dorme. Sonha misturado às estrelas do cosmo que tanto amou enquanto materializado nesse plano. Cá estou agora refletindo sobre o sentido da vida e das pessoas. O guerreiro dorme e é sono sagrado e merecido. E eu, me embrenho nas matas e celebro minha ancestralidade. As giras renovam em mim meus desejos de antes e reascendem a luz de aberturas nunca antes imaginadas. Em algum momento sei que relembrarei as coisas do guerreiro e toda a sua admiração por Osho, Hermes Trismegisto  e Buda.

Relembro o último rastro de Antropos em meio a flores desconheço.

às escuras
tateio o corpo de Antropos

minhas espertezas
nas pontas do dedo
remetem-me à texturas
que eu nunca esquecerei

na ribanceira do meu sono
sonho longamente
com seus carinhos

só é possível
memorizar seus mistérios
que pairam
na atmosfera lubridiosa
do meu quarto de dormir

fixado no teto
está o corpo de Antropos
grande
e mais pesado que o meu

ele está liberto
de minhas posses

descansa a salvo
dos frutos tortos
da paixão

permanecem intactos
os símbolos de Antropos

por que então
insistem os campos
a darem-me flores?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s