Árvores que caem. Ela sabe voar.

Ela sabe voar. Embora diga que não, ela sabe voar. E embora não tenha asas, sabe como fazê-lo. Só não aprendeu a ter coragem para os dias iguais. Tem medo da rotina, por isso conquista várias chances de desvendar os mistérios escondidos nas tardes quentes da capital. Em épocas específicas, é obrigada a gostar dos dias em que tudo parece vazio. Pelas pontes das horas cotidianas vai desenhando enfim, os traços desafiadores do entendimento daquilo que não gosta.

Enquanto isso, ele, ao contrário, não sabe voar. Nas suas horas vagas, critica a volubilidade feminina. Ele não sabe, mas deu a senha para que ela voe e evolua. Acredita que assim, a grande mola movimenta o mundo. Uns sabendo voar, outros aceitando a rasura do chão.

Quando alguma coisa a leva para outra direção, ela se firma naquilo que faz parte profundamente de si mesma.

Há dois dias uma árvore caiu. Foi durante a chuva forte, de ventania, que ameaçou os telhados do lugarejo. E era uma árvore grande, uma das minhas preferidas. Ficou lá, atravessada no meio da escada. Metade do milharal veio abaixo. Que vontade de chorar que me deu! Senti o que as pessoas do campo sentem quando suas plantações são dizimadas pelos humores baixos do clima. Fico olhando a árvore caída e só consigo pensar nos pássaros que habitavam seus galhos – preparações para a comilança todas as manhãs. Fico olhando os pés de milho e suas jovens espigas caídos no chão e só consigo pensar que dá certo respirar devagar e tomar um pouco de vinho no fim do dia.

Há de se ter calma. A calma dos ipês que não se cansam. Olho a serra verdinha e penso no que seríamos sem a chuva e suas mãos pequenas. Tenho um “cumpadi” no Pernambuco e ele conta que lá é preciso rezar pela chuva. Talvez nem rezando. Há de se ter calma. Acalmar os desejos, os receios, os trejeitos do corpo que sente falta de um não sei o quê. Há de se ter calma nas horas, pausa nas almas nem um pouco penadas. Estou cansada das pesadas.

Depois das dezenas de lagartas na varanda é a hora de arejar tudo na casa.

Meu avô fez 80 e Antropos já passa dos 30 – continua encantado. Seu Pedrinho debandou lá para depois do além e penso em tecer no feriado. A parte encoberta de mim pega um leve sol enquanto ninguém vê. Asas penduradas no varal.

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