Lá está você.
Na trilha do filme, no frio na espinha, nas dezenas de músicas que sempre me farão lembrar de alguma coisa que disse, na respiração que parou, na subversão que só o sexo é capaz de realizar nos seres humanos.
Lá está você nas horas menos improváveis do meu dia depois de dias de ausência total de lembranças do seu rosto ou de sequer sinal seu. Você não existe e nunca existiu. É apenas uma valvula prazerosa de escape. Lá está vocÊ, no fim do tunel, já fraco, quase inexistindo no meio da minha calmaria. Você desaparece, está sumindo, deixando de surtir efeito colateral nas minhas costas. Nem minhas mãos sequer registram seus nervos a flor da pele, suas intenções congeladas pela distancia, sua falta de sono. Meus passos nunca acompanharam seus ponteiros confusos.
Lá está você voltando para o seu lugar de sempre, donde nunca saiu na verdade a não ser para breves passeios despretenciosos.
Enquanto isso, queria ganhar linhas coloridas nesse feriado. E um fado na varanda de casa. Há muito tempo não os escuto. Lembro-me que há 10 anos atrás comecei a escutar fados com mais frequencia. Tinha vontade de morar no lugar mais tradicional do mundo. Levantava cedo e ia comer bolo de arroz no mercado da velha Vila Boa de Goyaz, conversava com a senhora que guiava as pessoas dentro do museu da Boa Morte. Acabei virando sua amiga, ia de vez em quando tomar café em sua casa no largo do Chafariz, a rua mais sombreada do lugar. Ao som dos fados, caminhava pelas ruas de pedra às duas da manhã e sonhava que um dia viveria numa cidade antiga e com ruas de pedra. Queria ganhar linhas coloridas e ouvir um fado e me esquecer de você, desvendar essa influencia, essa onipresença fugaz. E continuo achando estranho pois você não existe e um dia explicarei o motivo.
Nesse feriado plantarei coisas de vários jeitos. Semearei dignamente na certeza de que o que se planta, se colhe. E no meio das ausências encontrarei a parcela mais rica de mim mesma. Aquela parcela que pouco se vê, que pouco se consegue entender (ainda bem!).
Já faz muito tempo. 10 anos é muito tempo? Não consigo me lembrar do nome daquela senhora. Se me esforçar pode ser diferente. Será que ela ainda vive? Com certeza que sim, ainda posso sentir o cheiro da sua casa, do seus móveis antigos. Uma vez bati a perna num baú antigo e mal preservado que ficava no corredor. Tenho a cicatriz até hoje que conta coisas daquele tempo de Goiás.
Coisa típica de natal, ficar misturando o passado com o presente, de lembrar daquela senhora do museu e constatar que minha memória falha ao não lembrar seu nome. Coisas típicas minhas, misturar o que existe com o que não existe.
Mas lembranças devem existir para também anunciar o paralelo do novo com o velho e eu só consigo mesmo é sentir cheiro de coisa nova no ar do lugar onde moro. Não sinto falta de nada que não me seja útil e só quero mesmo é lembrar das coisas que ela falava enquanto me guiava pelas salas antigas cheias de Veiga Vale.
 
Estarei repensando em tudo enquanto planto flores.
 
Uma quietude impressionante me invade nesse momento.
 
Feliz natal!
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Um comentário sobre “

  1. Amei o texto!!! é livre, leve e solto, como seu novo caminho!

    Amiga, que saudade de vc, do seu rostinho de duvida, da sua voz meiga, do seu sorriso sincero!

    Fica com Deus! LUZ

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