Nas portas do inverno

Way Out - el silencio
Way Out – el silencio

Visivelmente entre-abertas, as portas invernais desafiam a mais uma leva de poesia. Será que dá para ressalvar-se na tentativa de desvencilhar das tentações dessa estação? Deixar de desejar a platéia: acho eu, que isso causa às vezes bloqueio e enjôos. Mas como já é sabido, visivelmente, lá estão as frestas, crescendo e aumentando a chance de adentrar a fenda. Onde se estará mais seguro afinal? Aonde mais for escuro e quente ressoa atraente (tenho sentido mais frio ultimamente). O inverno chegará, ninguém pode nada com isso. O fato é que percebo grudados na soleira da porta, vários diante do mergulho em sim mesmos. Deparo-me com meus medos mas descubro novas coragens, daquelas que compensam certas covardias, uma reparação quase justa para os tropeços. Outro fato é que a instigante explosão de cores que marca a troca de estação aqui no lugar onde moro me impressiona. Meu sempre vilarejo. Mesmo classificado de modo menos sonoro, o vejo como um pequeno vilarejo, meu lugar aquecedor. Mudam as cores das árvores. Mudam o destino das sementes ainda adormecidas e das paixões fadadas à pressa burra dos amantes solitários e prisioneiros de si mesmos. Outono se aproxima do fim e tudo muda. As manhãs ficam inundadas de folhas secas. Passeios públicos e passos apertados se misturam aos sinais de outros ciclos. Definitivamente não é a conta das folhas que caíram o que quero acertar. Contabilizar as coisas em fases de transição causa uma desconforto quase sutil em alguns. Como é sabido entre todos, no inverno os ursos entram em suas cavernas mas do lado de fora as árvores continuam suas jornadas. Sementes preparam-se para logo mais explodirem e o verde, transformado em amarelos e vermelhos, nos dirá realmente o que é mais importante nessa vida. Cruzo-me então com o último lance do olhar outonal que me acusa coisas que não serão publicadas jamais mas que meus cheiros latentes  aninharão em minha memória. Visivelmente, revejo meu corpo sentado aos seus pés. Minha cabeça em seu colo e um violão toca. Talvez eu fosse o gato louco para sair de dentro do saco naquela hora.  E abrem-se as portas!

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