Presságios de Outono

Isabel Allende declarou no seu livro Afrodite que “os cinquenta anos são como a última hora da tarde, quando o sol já se pôs e tendemos naturalmente à reflexão”.

Ainda que eu não tenha cinquenta anos (os próximos 20 serão emocionantes!), meu corpo está sempre rezando para que o tempo tenha uma morte tranquila. Quero ter a certeza que a qualquer momento posso voltar à origem de tudo. Já não tenho saudade da platéia de antigamente e ultimamente penso nas várias formas de dar descanso ao meu coração. Também penso nas várias formas do amor se apresentar.

Outono sempre me trouxe chuva e raios de prismas encabulados.A bem da verdade, eles ainda estão lá atrás, enclausurados na minha memória. No outono as folhas caem, deixam à mostra a nudez sagrada como se o tempo desfolhasse o mistério da natureza. Tudo bem que onde moro não consigo fazer essa relação se não olhar com mais atenção para a serra. Mesmo assim, vejo e sinto a ausência no seu aspecto mais fugaz.

Sinto que nesse outono poderei enfim bater minhas asas. As últimas águas de março limpam o céu e a terra. Lá  em casa anuncia-se o cheiro novo. Venta e sopra o que eu quero que bata à minha porta. Dessa vez, escolherei o nome. Sem errar a conta  das folhas que caem.

Admiro Isabel. Esperança além do normal são coisas do universo dela. Mas talvez eu me encante mais com as descobertas das passagens da vida e da idade. As estações me chamam a atenção em demasia. Me espanta (sempre, desde o início de tudo) o processo de maturação no amor, no sexo, no paladar. Todos eles andando juntinhos, de mãos dadas a caminho do tão aguardado fim. Assim como nas estações, coisas misteriosas vão acontecendo enquanto se faz o trajeto entre a mesa e a cama.

Ainda não está claro porque o outono me traz divagações. Pode ser pelo cheiro de fruta que invade a serra onde moro, pode ser pelo cheiro das afrodites que querem mudar minhas cores, perfumar meu leito e provocar coisas impublicáveis. Metade estou no descanso que tenho de ter até a chegada do inverno, metade estou nos sinais que ainda restam do verão onde me permiti a tantas aberturas do corpo e da alma.

Antes que eu vislumbre se conseguirei discernir os sinais do que de concreto é, outono.

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