Arrumando as malas

 

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Via Libre - elsilencio

 

 

 

Dois mil e oito caminha para o fim e eu arrumo minhas malas. Já entrei no ritmo estranho da despedida e começo a aceitar que tudo passou. Simplesmente passou.

A partir de amanhã não farei nada a respeito dos meses passados.

Agora, falta apenas fechar as janelas e deixar as plantas perto da água. Falta trancar a porta dos fundos e sair pela da frente.

Mas…

Tenho a impressão de que estou esquecendo algo. Também, quantas vezes quis apagar os fatos da memória? As coisas que quis esquecer agora são vultos que se movimentam pelos cômodos das minhas seis casas.

Seis casas, quatro anos, 3 amores – números de Agnes!

Estações, casulos na porta de cada uma delas. Em quantas chuvas já me molhei? Em 2 espelhos me olhei. Outros tantos quebrei.

Cacos enluarados vindos do perigo da doçura.

Quantas luas, quantos eclipses no alto da serra levantaram meus pêlos? Já sofri arrepios enquanto você mordia minhas costas mas ficarei velha e terei a impressão lá na frente que nunca dancei enquanto as margaridas ficavam azuis intensamente.

Já sofri calada, espreitei, voei sem sair do chão. Eu e minhas libertinagens de revoadas solitárias. Só eu e minhas asas, minhas comidas, minhas músicas, meus gatos e minhas linhas. Ou de repente, tudo isso junto preenchendo os cômodos das minhas seis casas.

Ainda vivo inebriada com seu cheiro que habita meus livros, minhas revistas, minhas fotocópias espalhadas pelos sábados de faxina.

Dois mil e oito caminha para o fim e eu não quero ver a retrospectiva passar depois da novela. Quero esquecer de umas cinco partes desse ano, tornar minha mente o brilho a guiar minhas escolhas. Que bom arrumar as malas e deixar cartas, sair de casa e rapidamente olhar tudo ao redor amando as coisas e suas histórias.

Mas não quero que pensem que é estranho esse maldito desapego com as  lembranças. Nem que confundam os nomes, as coisas, as conversas. Rezo em nome da transparência apesar do enorme medo.

Tenho que ir. Tenho pressa.

O novo se anuncia e sinto o cheiro leve da saudade se afastando da minha casa. Lá longe, a saudade me olha com o derradeiro aceno de quem eternamente ama!

Até logo! Mando notícias do lugar aonde estarei. Prometo que reservarei um pensamento a você no momento do meu último suspiro para logo depois me cegar com a claridade de uma vida repleta de esperanças. Um raio forte de sol haverá de cegar minha alma e todo meu entendimento renascerá festejando o recomeço.

Quero crer que você estará atento para perceber que esse instante é o que faz a vida realmente valer a pena.

Até a volta!

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Um comentário sobre “Arrumando as malas

  1. É como esse trem que passa ou como mais uma estação que se distancia quando olhamos pela janela.
    “Seis casas, quatro anos, 3 amores – números de Agnes!”
    E ainda virão tantos outros: amores, números , casas. E as memórias se alargando e só um peito pra carregar tudo isso.
    Quantos sóis, e chuvas e detalhes, frutos do tempo.
    E de repente é isso, fechar a mochila e partir.
    Deixar algo pra trá no seu lugar, carregar o bom das coisas
    e mergulhar no que há de vir. Mais um ano, uma página virada de um calendário que se encerra. “e o novo se anuncia”.
    Bem Lorena gostei muito de tua prosa, repleta de cores e sutilezas, voltarei para outras leituras.
    beijo e até.

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