Pedido de um homem de 40 anos

Ricardo Angélico
Ricardo Angélico

E era uma vez, um tal Homem Lento…

(Estou olhando para você. Sim, estou aqui do outro lado do espelho mas você teima e não me vê.)

O que você vai fazer hoje à noite? Estou livre, extremamente encabulado e lá no fundo, sem querer admitir, norteado e consciente do fim. Sabe o que é isso? Reflexos da minha falta de cabelo logo aqui ó, desse lado aqui, onde as tais entradas se solidificam para não contrariar a ordem natural das coisas.

Mas o que você vai fazer hoje depois que encerrar sua sessão de atendimentos? Janta comigo? Quero conhecer você melhor. Talvez se eu tivesse uma única oportunidade de lhe conhecer melhor pra poder lhe dizer que você precisa me conhecer melhor, eu poderia ficar mais claro aos seus olhos e quem sabe aos meus.

Outro dia conheci Marisol. Ela vinha do sertão, foi achada dentro de um baú colorido e hoje, mora em São Paulo. Quer ser bailarina de sucesso e quando dorme não sabe mais sonhar com o rosto dos pais — faz muito tempo que eles morreram. Era primavera quando foi encontrada. Era noite e tinha tantos pirilampos soltos no ar que até os mais duros despertaram.

Eu a conheci semana passada na fila do teatro e ela me disse que estava aqui por alguns dias para descansar entre um ponto e outro. Enquanto esperávamos tentava me ensinar em lições bem práticas a noção da claridade.

Daqui uns 3 dias vai voltar para São Paulo. Eu nunca mais verei Marisol e embora saiba  que ainda está por aqui, ando meio sem interesse em ir atrás das coisas. Restou em mim as lições quase ilusórias de como manter a claridade alojada no olhar. Nunca fui  bom autodidata  mas me tranquiliza o fato de minha mãe ainda torcer por mim nessas horas.

Queria muito que você jantasse comigo hoje para eu falar da claridade que quero alojar em mim. Eu sei que ando egoísta, desatento e incapaz de comprar flores. Um pouco mais de paciência com esse pobre homem vivendo as angústias desse número fatídico que traz a dúvida misturada à falta de cabelo que se anuncia todos os dias no espelho do banheiro. Prometo que mudarei os móveis de lugar caso você aceite. Ainda tenho forças para passar uma sensação de que está tudo bem a essa altura da minha vida.

Aceita meu convite. Eu sei muito bem que você não tem nada para fazer hoje depois do expediente. Prometo que deixo você falar à vontade, contar de tudo que aconteceu nesse 2008 estranho. Enquanto isso, esqueço das mulheres que me deixaram nesse 2008 também estranho para mim. Prometo também que lhe darei uma cama bem quentinha para dormir. Amanhã, nem precisa acordar cedo, pode ficar a vontade. Vou sair para trabalhar bem cedinho e não sei se voltarei porque talvez pegue a estrada para ver o sol sob outro ângulo. Capturar imagens sempre surtiram efeito antidepressivo em mim.

Mas quero ir com a lembrança de que conversando a gente se entende. Ando encabulado demais com meus sentimentos, minhas urgências, os riscos que quero correr para que essa vida não passe em branco. Por favor, faça-me mais de um favor: quando vier hoje depois do expediente traga alguma história para eu ouvir durante a sobremesa. Se a sorte estiver comigo dormirei antes mesmo de você se encher com suas defesas inúteis. Não tem para onde correr, a solidão será o mal do século para a maioria dos pobres mortais que insistem em sucumbir aos pés dos relógios e seus ponteiros invertidos.

Sei que ando sem jeito para praticar velhos romantismos mas quem sabe se você aceitar jantar comigo eu percebo o quanto estou atrasado e me deixando levar por besteiras da urbanidade e da vida cheia de convenções que sou obrigado a levar.

Então pensa aí. Não precisa mandar recado, basta apenas aceitar meu olhar como sinal de que não há nada sobrando de tudo isso.

Prometo que mudarei as coisas de lugar se você vier.

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