Memórias da Chuva – II

Dias Felizes
Dias Felizes - Ricardo Angélico

Quando a casa pedia mais calor eu saía em busca de novos cantos.

Certa vez, teve um que apareceu e me encheu de ares. Tinha um andar de monge, mas era inocente e indeciso. Permaneceu por um tempo, encheu a sala de respiração profunda mas nunca consegui enxergar a cor dos seus olhos. Quando lembro do seu rosto, me vem a imagem de cordas de violão que se arrebentam.

Teve um outro, de olhos azulados e profundeza de espaço. Era evasivo, fugaz e infantil. Caía no meu colo mas nunca me deixava cair no seu coração. Por ele enchi de ternura os sonhos noturnos. Eu desejei ser um corpo eterno para sempre acalentá-lo quando dos dias difíceis ele se sentisse cansado e solitário. Passei meses imaginando-o nos meus braços mas todas as suas constelações estão agora misturadas aos seus afazeres. Por esse, eu bati asas superficiais, mas o azul ainda é de profundeza.

Existe um outro que está sempre guardado num lugar escuro e doce. Tem olhos que se comunicam com os meus e junto dele nunca tenho de dizer nada. Fazemos nossos amores dissolvidos numa urgência que só nós, a sós, entendemos. Temos nuvens que sempre passam em branco mas que nunca deixam marcas profundas e inúteis em nossas lembranças. Por ele nunca sonhei, nunca esperei, mas tenho uma certeza madura, uma segurança sã, uma sensação de liberdade sem fugas. Ele tem aquele ar de quem tem os pés no chão mas enche minha morada de cor lilás sem me deixar esquecer jamais do seu rosto.

Por outros tantos fui desfiando minhas verdades, fui dando segundas e terceiras mãos. Mas em todos depositei alguma esperança dessas sutis, passageiras, ilusórias. Por alguns desejei estar mais atenta, por outros totalmente como uma fita de cetim bailando pelo ar absurdo de quem só atende aos chamados porque secretamente acredita.

Mas hoje estando mais segura de minhas cores, deixei de ter certos sonhos. Por último vão subindo pelo telhado do casulo certos animais e isso vai reforçando a intenção de me transformar num ninho. Nunca estou só. Tem sempre alguma imagem de olhos solitários que aparece pelo céu de Vênus imaginário do meu quarto. Nunca estou acompanhada. Pelo túnel a luz ainda não apareceu.

Eu jamais uso certos caminhos porque já passei por alguns que não me levaram a nada. Por todos aqueles que sempre cito em meus versos, eu avanço mas sigo atenta para que minhas cores não se desintegrem por meros olhos de diversos tipos.

Agora, fecho os olhos para sentir o cheiro do amor que está diante de mim. Sinto tão perto mais um dedo se estralando, mais uma nova sensação de ar deixando os pulmões dos gregos escandalizados com a perspectiva do derradeiro amor, que esqueço dessas danças absurdas que pegam esses desamores desacordados.

Deixo uma fresta iluminar meu rosto. Deixo-me guiar pelo escuro.

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