Árvores que se beijavam, azulejos trincados e passos apressados…

Sifting - Brendan Monroe
Sifting - Brendan Monroe

Tudo bem, entrego os pontos. Há muito tempo sei que você anda querendo saber como foi que tudo isso começou.

Eu tinha uns 10 anos de idade. Beijava árvores no quintal e fingia conversar com os azulejos do banheiro. Foi nessa época mais ou menos que concretizei a idéia do sexo na minha cabeça. Mas eu tinha essa idade e já pensava nessas coisas de maneira antropológica, se é que existe isso. Deve existir porque tudo hoje em dia existe.

Mas eu gostava de imaginar o rosto, as mãos e os membros. Lembro que perdia horas mas ganhava eternidades a cada vez que sonhava acordada. Engraçado isso, a cara muda, a voz some, os trejeitos confundidos entre as pessoas iludem o resto da humanidade.

Mas foi há tanto tempo atrás que nem acredito que sobrevive. Eu nem moro mais naquela cidadezinha, já mudei de nome, de clima e de profissão. É fato: o amor sobrevive.

No começo, ele era a promessa perfeita mesmo eu sabendo que não existe perfeição. E mesmo eu tendo milhares de luzes nenhuma delas piscou quando apareceu lá em casa com aquela cara de cachorro doente, doido por um resto de comida. Eu, que só me acostumara a admirar a natureza e seus ciclos, me vi sem saída: tive de me apaixonar antes mesmo de saber quem era aquele homem. E mesmo ainda não sabendo, percebo e entrego meus pontos: tinha de acontecer. Como não?!

Desde aquela idade delicada então trago o rosto na minha marca maior. Os anos passaram por todos os senhores e a delicadeza daquela imagem permanece intocável. E sabe do que mais sinto falta? Justamente do gosto inicial. Tudo começou e… já se foi.

Não aprendo a aceitar o que é efêmero, o que dói e passa. Não acerto na loteria, não tropeço mais nas pedras, não como mais as unhas mas ainda ando na corda bamba. Já nem sei se outrora marquei o caminho com aqueles sinais que nos perseguem ao longo da juventude.

18 anos se passaram. O quintal daqueles anos ainda permanece vivo na minha memória. Mas minhas estrelas adivinham sua hora e pela janela do quarto me espreita uma gaivota perdida, longe do mar, querendo ver o azul da primavera estampada no meu rosto. 18 anos se passaram e ainda sinto o gosto das cascas das árvores, a textura dos azulejos, a voz da minha mãe apressando meus passos.

E lá vão os homens, sem perceberem que tudo está muito só, muito gasto. Vamos então nos acostumando com os restos. Eu, cá com minhas lembranças dos anos que não voltam mais, sigo tentando me conformar.

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3 comentários sobre “Árvores que se beijavam, azulejos trincados e passos apressados…

  1. Agnes, que bom que vc está gostando do meu blog. Por favor, ponha o link no seu blogroll. Apareça sempre, e comente quando quiser! Até agora não tive nenhuma leitora chamada Agnes, eu acho. Mas tenho uma amiga muito querida, francesa, com esse nome. Abração!

  2. Olá…adorei o texto….que singelo, mágico, uma saudade de ser criança de novo…e conversar com árvores e azulejos;
    Parabéns, voltarei sempre pra ver suas novidades…abração!
    Ale

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