Memórias da chuva – I

Isso que vou escrever agora não é sobre nós. É sobre a memória que tenho da chuva.

Você reconhece a hora dos nascimentos? Haverá de ser um algo qualquer dotado de ponteiros, ou simplesmente, o início do buraco negro de alguma galáxia diferente da nossa? Prefiro acreditar no tempo que vai além do que o destino determina.

Prefiro acreditar em Deus e seus reclames diante de uma humanidade apressada e dividida em fragmentos enluarados no que se pode sinalizar de sociedade. Você está vendo alguma coisa nossa aí? Estou te falando que não é sobre nós.

Sei que essa minha memória é azul, mas mesmo assim prefiro esquecer que às vezes fico muito amarela. Tenho uma parte insolúvel e de nada vale tantos temperos indianos e goianos. Eu nasci lá, mas aqui e agora vivo um parto novo e dolorido. Falta-me água para completar minha gestação. Meu parto novo e dolorido, sei, terminará nos fluidos maiores da minha existência.

Essa seca está me matando. Percebo isso porque sinto que estou me diferenciando do ontem, ainda tão próximo na memória. Não agüento mais cheiro de chuva aprisionado dentro do meu nariz, do meu ouvido, da minha roupa molhada que seca no varal, atrás da geladeira, no improviso da cadeira na cozinha. Eu olho para os cantos da casa e prevejo um futuro de umidades e manhãs cinzentas.

Eu tenho uma teoria de que a desventura se disfarça de rotina. Nada me desanima mais que dias sempre iguais. Não tem graça morrer naquilo que foi ficando velho depois que se descortinou o novo.

Wystan Alden disse certa vez que “todo ser humano carrega consigo, vida afora, um espelho exclusivamente seu e do qual será tão difícil livrar-se quanto da sua sombra”. .

Ora, eu tenho muitos planos. Já que tão cedo livrar-me-ei desse tal espelho, tenho planos antigos como viajar pela parte antiga do mundo. Ver antigas ruínas, estruturas que me impressionem demais, já que nasci num tempo em que arranha-céus já existiam. Eu sem estar lá, na selva de pedras, sempre acreditei que existisse uma outra forma de vida, pensante, andante e voadora.

Eu nunca me esqueci do dia em que meu pai me colocou no colo, sentado à luz da lua cheia, no nosso terreiro de casa, e me mostrou São Jorge em seu cavalo branco, dominando o dragão. O jeito da chuva era outro. Mas eu me lembro que olhei mais o dragão que o próprio cavaleiro do Bem e da Valentia, mesmo sabendo que isso não tinha importância e que ali, meu pai ensinava-me pela primeira vez, que na natureza existe o bem e o mal de acordo com minha interpretação. Mais tarde, muitos anos depois, eu solta pelo Planalto Central, descobri que realmente fazia parte da natureza e que havia em mim, a lembrança do rosto de outros pais que tive.

Mas ainda permanece a textura da nuvem que cobre o rosto da dúvida. O mistério que não quer se revelar enquanto se está vivo aqui nesse mundo cheio de contradições. Se o que salva e o que mata é a mesma coisa, o que estou fazendo respirando ainda seu cheiro espalhado pela casa?

Tem uma parte sua que eu gostaria que me ensinasse a tempo, como é que se faz contas, já que desobedeci algumas ordens que me premiassem com certas habilidades. Queria que você me ensinasse a lutar contra a tristeza de ter que escolher entre os planos antigos e aqueles que devo fazer agora. A hora da estrela aqui é aquela de refazer planos, decidir a missão e determinar o que pode ser interessante para as idades mais maduras.

Será que você sabe cheirar a vida de fato? Sabe o que é a dor?

Para que responder essa pergunta se há tantas outras mais urgentes não é mesmo? Sei lá, ultimamente estou menos acordada e sonhando mais. E lembrando dos sonhos, e querendo mais deles, e querendo um tipo de descanso meio raro entre as pessoas com quem convivo.

Bem, estou por aqui, envelhecendo e aprendendo.

Será que um dia concordarei que seu casaco sobra no peito e falta nos bolsos? Eu te vejo e parece que vejo a mim mesma.

Estou amando  isso.

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