Delicadeza (ou a dúvida que resta)

Ana Ventura
Ana Ventura

Tinha de estar menos indecisa e em estado mais natural. Assim, revelaria-me no que realmente estou e sou. Poderia então estar nos braços das noites ou simplesmente fluir como se fosse mais uma visita casual. Poderia ser causal ou unicamente sem intenções.

Penso que posso querer enganar-me pelo fato de existir uma certa delicadeza na aparência e em certas viagens que faço nas mãos. As aparências mudam quando os outros mudam os pesos, um tipo de parto de coisas novas ao que já se conhece. Antes as mãos não estavam lá e agora, tão vivas e tão brancas. Anterior ao olhar que faz mudar, era mais um que passava, que falava, mas agora o silêncio ambulante faz barulho nos ouvidos, o que não consigo entender. Poderia dar o primeiro passo mas são tantas coisas pra fazer e ainda existem promessas para olhar com mais seriedade os rastros deixados pela noite.

Ainda dá para equilibrar a balança entre as idades. O peso da maturidade cobra certos carinhos que se pode fazer no outro, esse tão comemorado outro, mas não sei muito bem o que fazer com os estampidos de noites e desejos de juventude indomável.

Poderia então nesse momento procurar pelos olhos que se pode escolher para alimentar os desejos tão efêmeros.

Eu, que ainda treino a existência, decidi escolher o mais delicado, o que atrai meu corpo, mas que aparentemente acalma os sentidos, como beber algum chá calmante antes de dormir.

Não posso explicar os desejos. Existirá uma parte que lutará contra todas as outras, embora eu tenha descoberto que não existem conflitos entre razão e coração (foi num dia de fim de expedientes que me atentei para isso) mas tudo bem, fingirei que os tolero. 
    Mais uma vez uma delícia faz sonhar e pensar nas mãos. Poderia então deixar de fugir da verdade e permitir a entrega ao que está certo. Não importam as ausências alheias e as saudades que o outro sente, tudo seria muito fácil se fosse fingido mas eu aconselho dizer quem é que queremos nesse momento.

Quero dizer aos que agora estão passando os olhos por aqui que se cuidem quanto à primavera: por perto existe algo efêmero mas dotado de poesia e letras para sinfonias de instrumentos elétricos. Por isso tento dizer aos mais próximos que é saudável por esses dias se afastar da tendência de só dar passos quando se tem certeza das coisas porque tantas vezes me lembro de folhas de jornais que se reaproveitam quando na casa há intenções de refazer a pintura das paredes. E que tudo está lá, em lugares seguros, para mudar as cores sempre que quiser.

Sem nada a perder.

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