Pés Gelados

 

Sinto meus pés gelados e a música encanta meus ouvidos que só escutam o canto das sereias aladas, vindo ao longe, cortando ligeiro o cerrado-fogo do sertão desse lugarejo. Pairando às nossas cabeças, estão as singelas fitas de cetim, coloridas e leves,  cintilâncias da menina de olhos verdes  sempre-viva, eternamente viva.

 

As asas ainda brotando, lançam-me ao fundo do buraco furta-cor da existência, realizando a cada chegada um movimento único que nunca nascerá novamente. Ali tudo se inicia, ali tudo se finaliza.
 
A urgência pelo entendimento abriu e fechou rápido demais os lábios da moça que sonhava com a tal “alma gêmea”. Suspeito que tal ilusão aumentou o meu talento especial para quedas e tropeções, mas nunca escondi de ninguém esse meu lado infantil.
 
Vislumbro dias de infinita paz e de olhares verdadeiros. Todos eles esperam-me logo ali, na curva, sentados à sombra da floresta. Eles possuem asas como eu, mas nem sempre há razão para usá-las, pois aqui onde eu moro, os pés gostam mesmo é de serem comidos pela terra. Aqui, onde quero ver o sol pela última vez, sob efeito do encantamento da Serra do Carmo.
 
Meus casulos imploram pelo rompimento. O sangue da minha entranha transborda para um tipo de renovação que sonha e volta, que dança e dorme ao som das batidas do coração porque o silêncio é maior que os egos, que os pecados.
 
Ao fim do dia então, quero junto ao sol poente, sentir que estou me despedindo da vida, essa casca que envolve minha essência alma. E ao sol nascente, quero abrir os olhos, sempre bem cedinho, para a vida, celebrando o nascimento de mais uma pele protetora, companhia nessa rotina tão sufocante, tão maldosa. Morro e nasço todos os dias. E só quem nasce e morre todos os dias sabe das durezas e tristezas desse ofício.
Tudo parece estar agora tão preparado. A minha espera eternizou dentro da minha alma a hora da estrela.
 
 Olho tudo ao redor na casa e pressinto que voltarei numa outra hora,   quando o tempo de Lampião novamente reinar. Faço minhas malas, mas sei que não vou chegar a lugar algum. Fecho os olhos nessa hora e apesar da minha tristeza, a vida aqui no lugarejo onde moro segue um ritmo colorido e saudável.
 
Meus pés gelados e alados levam em si, cravados em suas solas, a poeira desse cerrado que queima em chamas a esperança de todos os bichos que correm desenfreados, em  busca de algum canto verde-vida.
 
quero um dia, eu mesma apagar com a alma, as maldades e as desventuras dos senhores feudais, causais, esses coronéis antiquados e mal-amados.
 
Nessa hora, saberei mostrar a mim mesma os pecados de que já me redimi.
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