Retorno

Cheguei…

Enfim, cheguei! Há 10 dias não via esse lugar.

Acaricio o chaveiro tosco enquanto desço a rua em direção à minha casa. As outras casas – onde não durmo, onde não como, onde não moro, elas estão também me olhando. E eu sei que elas sabem que eu também as olho.

Enfio com certeza a chave no buraquinho. Abro suavemente o portão, mas com firmeza de gente convicta.

Dou aquela olhada…

A primeira coisa sem dúvida que faço é chamar por Frida Khalo. Chamo mais duas vezes e então, chamo por ele. Que nada…. cadê Frida?

Tarsila salta da escuridão do beco. Dessa vez, achei que o sinal era mais suave, mais gentil. Aquilo me distrai por 5 segundos. Chamo novamente por Frida Khalo. Nada dela. Nem dele, o homem da casa. Bem, eu nunca esperei pelo amor recente, por isso não o chamo. Mas penso nele mesmo assim.

Abro a porta da sala e num repente de um milésimo de minuto, não sei que lugar é esse. Olho ao redor e tudo está sujo. Claro! Os ventos devem ter soprado intensamente durante o tempo em que estive fora. Vejo algo no chão que se parece com mau presságio. Alguns móveis estão em lugares diferentes. Cheiros diferentes. Será que nasci de novo?

Ligo a luz do quarto, olho ao redor, reconheço onde durmo. Parece a parte mais intacta da casa.

Já olho com olhos medievais. Naquela época tudo era muito sujo, muito rude para uma parte da sociedade. Aquelas cores de terra, vinho tinto, cacau, curry e carvão, muita carvão, aquilo contradizia o exagero de cores pastéis, cetins prateados, jóias e pérolas, e acima de tudo, contradizia tudo na natureza humana.

Sei por onde começar, mas noto tantas coisas que estão faltando! A sujeira me dá essa impressão. Quero ir logo ao vizinho, assuntar com ele o acontecido. Pode ser que ele tenha encontrado todos os mortos para um lugar onde eu não poderia me achar.

Sinto minha casa. Sinto a mim mesma, sinto meu cheiro. Tão familiar essa casa, mas ao mesmo tempo nem é mais minha.

Cadê meus sons, meu banho quente, minhas xícaras, meu espelho? 

A noite fatidicamente está fria e o céu é uma abundância de estrelas. Limpidez da minha flora interna. Musicalidade da serenidade disfarçada de solitude.

Será que vai começar tudo de novo?

Ele me olha diferente. Está mais amável.

Tem alguma coisa estranha na cozinha. Vejo que algo se deteriorou. Sempre assim né: a gente esquece maçãs e açúcar na pia e quando volta, já é uma outra forma, um outro sentido.

Porque será que sinto falta de algo com essa força?

O que será que ficou para trás, lá naquelas terras vermelhas, naqueles pastos cheios de recordações e árvores isoladas? O carro avançava tão rapidamente pela estrada, que eu quis acessar minhas lembranças todas de uma só vez.

Como o banheiro está sujo! O desespero pela água nos submete a inúmeros vexames. E aquela coisa de perceber como as árvores reagem à maneira que o rio vai se distanciando – aquilo mexeu muito comigo.

Poesia pobre, esse broto de sei lá o quê. Os tantos projetos mal acabados.

Essa casa precisa de uma faxina. Vejo a mim mesma vivendo um depois de segundos. Percebi há segundos atrás…

Ontem estava na casa da minha mãe, a estrada passou e eu já trabalhei hoje, já peguei 5 ônibus e as imagens que ficaram foram:

Ela acordou suspirando, tinha uma outra cor.

O café, pouco adoçado, me reanimou para a vida.

A cidade ainda tem uma coisa com o horizontal; o centro ainda é arejado.

Tudo no escritório estava do mesmo jeito.

Ela estava mais leve, mais feliz. Ele continuava ouvir as duas mulheres como se fosse parte delas.

Ela mostrou o novo namorado; tinha cabelos lisos, tocava um instrumento, passava uma boa impressão e tinha jeito de uma brisa leve. Eu a vejo dizer que ele a cuida.

Ela me disse que conseguiu se soltar.

Ele disse que o projeto precisa de uma avaliação. E eu? Bem, eu concordei.

As pessoas dão risada diante do erro.

O café ainda continua unindo as conversas. A internet também.

Ela sente-se renovada. A outra comprou um carro e bateu em seguida. Todas acharam que o ritmo anda acelerado, que é preciso ir devagar.  

Os caminhos começaram a se abrir.

Ela de repente fica com raiva. Ele tenta consolá-la. Ela sái para andar um pouco ao ar livre.

Não deu vontade de comer carne.

A tarde vazia aconteceu.

Ela gosta de dormir com alguém cantando. Quando se afasta, acorda e chora. O sistema de transporte ainda continua lento e ineficaz.

Já tem carros com os rostos dos candidatos.

Ela dormia às 5 da tarde. Ele mandou flores às 5 e 11. E ainda me encanta o fato de que ele lavou suas roupas, suas botas sujas de lama. Isso não se vê mais.

Cheguei!

E cá estou ouvindo minhas músicas, de banho tomado e com meias nos pés. Sinto falta de Frida Khalo.

Noite fria e boa para dormir, descansar, agradecer ao sereno essa dádiva da vida, essa festança estranha por eu ter voltado para casa. E apesar da ausência de alguns, sinto-me verdadeiramente em casa.

 

 

Taquaruçu, 28 de Julho de 2008

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