“In-chuva-da” (sobre a janela chuvosa)

 

Chuva chegou

Quintal meu

Tão interno

Alagou-se.

Não deu goteira

Telhado marrom

Minha esperança

Alojou-se.

Chuva lavou

Flores no varal

A menina siriguela

Avermelhou-se.

Esfriou a casa

Quintal meu

Tão invernado

Alardeou-se.

 

poema da série

Libertinagem de revoadas solitárias

– pequeno ensaio que antecede o parto

escrito no Tocantins e em andanças durante a estação das águas do ano de 2007.)

 

 

Estripulia

tenho casos com ventos
sempre(!)
e com convicção avançada.

já sofri arrepios e chão gelado sob os pés
mas nunca estive nua num vendaval.
também nunca vi margaridas sem pétalas.

(os cabelos estalam em forma de redemoinho)
minha avó alertava,
mas eu só queria me esticar.

desenfreamentos

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Harriet Lee Merrion

De forma desenfreada, acordei uma noite, encharcada em meus sonhos, revirada nas voltas que seu cabelo deu diante de meus olhos.

Meio acordada, meio dormindo, vagueei pelas frestas do teto, enternecida pelas supostas mãos da vontade encabulada em meus baús secretos. Virei a página do poema que lera no dia anterior e suspirei enquanto reformulava as cenas do seu olhar rasante.

Motivada pela eminência da chuva entalada em minha garganta, desaguei sem pudor na busca do entendimento por tamanha fome e tamanha serenidade ao mesmo tempo. Meu teto desabou sobre mim, tudo já estava externado, fugidio do sonho que sempre se repete. Antropos vive eterno entre meus devaneios. Antropos sobrevive entre minhas pernas e assim segue pelos anos desde seu aparecimento. Antropos é de uma teimosia infernal, me leva ao céu e ao inferno. Amo Antropos apesar de nossas incontáveis encruzilhadas. Amo Antropos não porque ele me ama mas sim pelo seu passo lento, suas mãos de escalador de montanhas inatingíveis. Amo Antropos porque ele me faz sentir viva em meus desejos.

Desenfreada entre minhas noites, desaguo todas as águas que me são possíveis. Permaneço acordada para ver o sol nascer com seus raios futa-cor e tateio os cacos do teto desabado entre meus lençóis. Já espero a chuva há tempos e acredito em sua promessa. Nunca perco a esperança.

avistamento

Em época de peles descobertas, o sertão torna-se fresco. Em frescas e libertas peles, surge uma inquietação e segredos são revelados. À luz da verdade, peles e corpos são como contadores de histórias sentados à sombra generosa de uma árvore rodeados de buscadores. – devoração de árvores -. Vento que sopra ao leste das peles, lendas da seca. Rezas de São Jorge, música do cavaleiro, vestígios de Veadeiros, heranças dos garimpeiros. Descobertas sob a influência do frio, danças e romarias, rezam as histórias de lá, que é o canto mais guardado do Cerrado. Céu mais estrelado ao alcance de qualquer visão. Dizem que correm as águas puras, – mandam notícias de gente da nova era -. Reza a lenda, e celebram as histórias, que o lugar chama tanto por seus salvadores como por seus destruidores.

Qual o caminho escolher?

Luas cheias e ganhos feitos através de perdas. Assim é a enluaração no Cerrado na passagem do ano encabulado de transtornos e crises. Devoração de árvores e peles escancaradas, corpos nus e mentes sonhadoras. Pelo “Planalto-alto” os sonhos se refazem – delicadeza é sonhar nesses tempos de chuva que cessa antes da hora, de água que seca no tempo errado e traz o veranico de más intenções dos senhores feudais. Assim é a usurpação do Cerrado na passagem de um tempo encabulado de ilusões que já não servem para nada.

Ao longe escuto o choro que nunca mais será retido. Também não serão retidos a dor embalsamada nem a dança dos corpos e das vontades. Constato que invernos podem enclausurar se a mente entristecer. Assim a enluaração faz encher o mato e os corpos. Assim faz a volta do sol, contamina de poeira o povo daqui. A enluaração renova as esperanças para aqueles que fluem em meio à crise de pensamento, de território, de rezos, de leis, de homens. Em tempos como os de agora, respiro, tento, respiro.

Corações aflitos e agoniados, corações apertados e congelados às 3 da tarde, enquanto o sol doura tudo ao redor, enquanto a dor não passa, enquanto a fé se renova misteriosamente.

Crio e recrio o dia em que o tempo parou para mim. Metade minha é espalhada, como as estrelas. Vivo mais depois, dia após dia, e em cada dia eu descubro mais mistérios. Absortos e livres pelo espaço, um dia seremos seres regidos pelo poder misterioso do amor. Assim, como numa queda, seremos sabotados pelo mistério, pelo futuro incerto. E nos erguerá, laboriosamente, o amor, de onde estivermos.

Cores continuarão a se espalhar pelo Cerrado, continuarão a mostrar a passagem do tempo através das estações, das águas, dos ventos, dos céus azuis e estrelados, das nuvens fartas, das naves nuvens e das árvores. Nuvens ancestrais, dos filhos de agora, de antes, de depois, das moças, dos avós.

Doces tardes que cada vez mais se abafam com os ponteiros apressados e o ritmo da devastação.