chuva

 

chuva
cigarras
frutas no quintal
terra molhada
pássaros
beija-flor
verde
morte
vida
poesia
música
frio na pele
vento úmido
cheiro gostoso
a percepção do sol
o verdadeiro sol
canto de todos os seres ao mesmo tempo
a vida secreta das coisas

inundações, perdas e primavera

do destino de uma hora fatal
ecoam os sussurros
da memória das folhas
pisadas num caminho
de silêncio e noite

durante a viagem
mora no chão
o rastro de uma cadente
que descortina o verdadeiro sentido

minhas vidas são sequências
me encontro e me reencontro
prefiro o silêncio das plantas
encerro na pele cada estação.

quando a hora chegar
gravarei na memória
a abertura das asas ao sol
– findarei inundada de primavera.

“In-chuva-da” (sobre a janela chuvosa)

 

Chuva chegou

Quintal meu

Tão interno

Alagou-se.

Não deu goteira

Telhado marrom

Minha esperança

Alojou-se.

Chuva lavou

Flores no varal

A menina siriguela

Avermelhou-se.

Esfriou a casa

Quintal meu

Tão invernado

Alardeou-se.

 

poema da série

Libertinagem de revoadas solitárias

– pequeno ensaio que antecede o parto

escrito no Tocantins e em andanças durante a estação das águas do ano de 2007.)

 

 

Estripulia

tenho casos com ventos
sempre(!)
e com convicção avançada.

já sofri arrepios e chão gelado sob os pés
mas nunca estive nua num vendaval.
também nunca vi margaridas sem pétalas.

(os cabelos estalam em forma de redemoinho)
minha avó alertava,
mas eu só queria me esticar.

desenfreamentos

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Harriet Lee Merrion

De forma desenfreada, acordei uma noite, encharcada em meus sonhos, revirada nas voltas que seu cabelo deu diante de meus olhos.

Meio acordada, meio dormindo, vagueei pelas frestas do teto, enternecida pelas supostas mãos da vontade encabulada em meus baús secretos. Virei a página do poema que lera no dia anterior e suspirei enquanto reformulava as cenas do seu olhar rasante.

Motivada pela eminência da chuva entalada em minha garganta, desaguei sem pudor na busca do entendimento por tamanha fome e tamanha serenidade ao mesmo tempo. Meu teto desabou sobre mim, tudo já estava externado, fugidio do sonho que sempre se repete. Antropos vive eterno entre meus devaneios. Antropos sobrevive entre minhas pernas e assim segue pelos anos desde seu aparecimento. Antropos é de uma teimosia infernal, me leva ao céu e ao inferno. Amo Antropos apesar de nossas incontáveis encruzilhadas. Amo Antropos não porque ele me ama mas sim pelo seu passo lento, suas mãos de escalador de montanhas inatingíveis. Amo Antropos porque ele me faz sentir viva em meus desejos.

Desenfreada entre minhas noites, desaguo todas as águas que me são possíveis. Permaneço acordada para ver o sol nascer com seus raios futa-cor e tateio os cacos do teto desabado entre meus lençóis. Já espero a chuva há tempos e acredito em sua promessa. Nunca perco a esperança.