desenfreamentos

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Harriet Lee Merrion

De forma desenfreada, acordei uma noite, encharcada em meus sonhos, revirada nas voltas que seu cabelo deu diante de meus olhos.

Meio acordada, meio dormindo, vagueei pelas frestas do teto, enternecida pelas supostas mãos da vontade encabulada em meus baús secretos. Virei a página do poema que lera no dia anterior e suspirei enquanto reformulava as cenas do seu olhar rasante.

Motivada pela eminência da chuva entalada em minha garganta, desaguei sem pudor na busca do entendimento por tamanha fome e tamanha serenidade ao mesmo tempo. Meu teto desabou sobre mim, tudo já estava externado, fugidio do sonho que sempre se repete. Antropos vive eterno entre meus devaneios. Antropos sobrevive entre minhas pernas e assim segue pelos anos desde seu aparecimento. Antropos é de uma teimosia infernal, me leva ao céu e ao inferno. Amo Antropos apesar de nossas incontáveis encruzilhadas. Amo Antropos não porque ele me ama mas sim pelo seu passo lento, suas mãos de escalador de montanhas inatingíveis. Amo Antropos porque ele me faz sentir viva em meus desejos.

Desenfreada entre minhas noites, desaguo todas as águas que me são possíveis. Permaneço acordada para ver o sol nascer com seus raios futa-cor e tateio os cacos do teto desabado entre meus lençóis. Já espero a chuva há tempos e acredito em sua promessa. Nunca perco a esperança.

avistamento

Em época de peles descobertas, o sertão torna-se fresco. Em frescas e libertas peles, surge uma inquietação e segredos são revelados. À luz da verdade, peles e corpos são como contadores de histórias sentados à sombra generosa de uma árvore rodeados de buscadores. – devoração de árvores -. Vento que sopra ao leste das peles, lendas da seca. Rezas de São Jorge, música do cavaleiro, vestígios de Veadeiros, heranças dos garimpeiros. Descobertas sob a influência do frio, danças e romarias, rezam as histórias de lá, que é o canto mais guardado do Cerrado. Céu mais estrelado ao alcance de qualquer visão. Dizem que correm as águas puras, – mandam notícias de gente da nova era -. Reza a lenda, e celebram as histórias, que o lugar chama tanto por seus salvadores como por seus destruidores.

Qual o caminho escolher?

Luas cheias e ganhos feitos através de perdas. Assim é a enluaração no Cerrado na passagem do ano encabulado de transtornos e crises. Devoração de árvores e peles escancaradas, corpos nus e mentes sonhadoras. Pelo “Planalto-alto” os sonhos se refazem – delicadeza é sonhar nesses tempos de chuva que cessa antes da hora, de água que seca no tempo errado e traz o veranico de más intenções dos senhores feudais. Assim é a usurpação do Cerrado na passagem de um tempo encabulado de ilusões que já não servem para nada.

Ao longe escuto o choro que nunca mais será retido. Também não serão retidos a dor embalsamada nem a dança dos corpos e das vontades. Constato que invernos podem enclausurar se a mente entristecer. Assim a enluaração faz encher o mato e os corpos. Assim faz a volta do sol, contamina de poeira o povo daqui. A enluaração renova as esperanças para aqueles que fluem em meio à crise de pensamento, de território, de rezos, de leis, de homens. Em tempos como os de agora, respiro, tento, respiro.

Corações aflitos e agoniados, corações apertados e congelados às 3 da tarde, enquanto o sol doura tudo ao redor, enquanto a dor não passa, enquanto a fé se renova misteriosamente.

Crio e recrio o dia em que o tempo parou para mim. Metade minha é espalhada, como as estrelas. Vivo mais depois, dia após dia, e em cada dia eu descubro mais mistérios. Absortos e livres pelo espaço, um dia seremos seres regidos pelo poder misterioso do amor. Assim, como numa queda, seremos sabotados pelo mistério, pelo futuro incerto. E nos erguerá, laboriosamente, o amor, de onde estivermos.

Cores continuarão a se espalhar pelo Cerrado, continuarão a mostrar a passagem do tempo através das estações, das águas, dos ventos, dos céus azuis e estrelados, das nuvens fartas, das naves nuvens e das árvores. Nuvens ancestrais, dos filhos de agora, de antes, de depois, das moças, dos avós.

Doces tardes que cada vez mais se abafam com os ponteiros apressados e o ritmo da devastação.

 

 

espera de espreita calada

 

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foto: Kylli Sparre

 

(amores, explosões e vaga-lumes)

Dizem que se nasce uma vez só nessa vida. E que amor de verdade é um só, desse que atravessa as estrelas e confirma as previsões.

Coisa desconhecida, assalto de mão desarmada, se apresenta com ar de simplicidade a que muito custa perceber que chegou, sina injusta do imperceptível, à mercê dos que não sonham. Tanto medo, tanto tiro perdido, que acabou se habituando ficar escondido nas coisas sem importância aos que olham somente para o chão.

Na espreita de coisas muitos caladas, o amor em mim foi se arrodeando, se instalando sorrateiro, por debaixo da porta foi entrando, espremido, menino. Tanta festa, tanto riso, confete, serpentina, todas aquelas coisinhas que se usa para pratear o salão.

Em plena espera, tanto encantamento me fez acordar para uma parte esquecida de mim mesma. Tanta espera acabou silenciando as camas dos amantes e eu fui ficando de olhos abertos mesmo quando, por cansaço, quis fechá-los. Era o medo de não mais saber o que é ter sonhos noturnos. Tanta coisa pareceu infinita que as simplicidades ficaram na cara.

Descubro, na espera, que pessoas são idênticas às correntezas e que o amor é o descansar sob a sombra da árvore. O amor é o olhar à beira do remanso no barranco do mundo. Quando ele não existe tudo se abafa. Seu movimento é em direção ao centro. Sua bandeira, a da harmonia. Do amor, seu equilíbrio são os pés no chão e cabeça no além.

Ah, Mundo Eu! Para mim é muito simples: o amor ultrapassa os muros, os templos, as praças sem bancos e sem copas. Algo me diz que pessoas foram feitas para serem amadas.

O amor é a certeza de um tipo de esperança que só se manifesta quando todos os sentidos agem ao mesmo tempo. É o mistério sacramentado quando uma criança nasce do amor entre dois seres, quando a vida se garante a salvo das grandes catástrofes da intolerância, do ódio. Um só amor salvaria todos aqueles olhares inocentes e tomaria de surpresa as florestas, os animais, as águas poluídas e a flores indefesas que dormem petrificadas na Rocha Mãe toda Poderosa.

Aqui nesse quase inverno, digo a todos que acordei foi cedo demais –  urgência por entendimentos, por coisas encantadas, sem nome, sem cor exata, que eu aprendi aos poucos, que na verdade não pertencem ao mundo muito menos aos Homens.

O amor sim, à espera, com olhos que nunca dormem, fica à espreita do sono dos que têm fé, dos que sabem que o entendimento mora aí nesse fabuloso mundo.

Não tenho a intenção de ousar em nenhum momento aquilo que não cabe nos vazios porque eu gosto é das coisas em quantidades pequenas. Do exato, do necessário. Do que enche e não derrama. Do que dorme e sonha.

 

ventos

De ventos improváveis, são feitos os desejos das horas noturnas. Embalados em sonos resistentes, os desejos e as horas se misturam em forma de dança, mas vivem batendo cabeça, ponteiros e desatinos. Para mim, uma hora dessa, vira tudo possibilidades.

Amores chuvosos dessa época, à menor eminência de sol, estendem as asas em fios musicais. Descobertas também pode ser o nome da incerteza. Só sei de mim mesma em dias de chuva, se perfaço o caminho do sol dentro do corpo. Só sei de mim mesma e os outros são versos de um poema mágico.

Por aí, escondo meus mistérios em nome da liberdade e da fluidez