Aguaceiro (barragem rompida)

 

no aguaceiro da lua cheia

deságuo

e é sem volta

 

sem remédios

finalizei o verão

como quem encerra um ciclo

 

na contagem dos frutos

é mais provável

que eu decomponha

 

mistérios não me salvam

rezo para a dor cessar

libero minhas águas

 

é sem fim:

a dor de quem sente falta

e nada é controlável

 

só resta o estrago

de um peito vazio.

 

 

chuva

 

chuva
cigarras
frutas no quintal
terra molhada
pássaros
beija-flor
verde
morte
vida
poesia
música
frio na pele
vento úmido
cheiro gostoso
a percepção do sol
o verdadeiro sol
canto de todos os seres ao mesmo tempo
a vida secreta das coisas

inundações, perdas e primavera

do destino de uma hora fatal
ecoam os sussurros
da memória das folhas
pisadas num caminho
de silêncio e noite

durante a viagem
mora no chão
o rastro de uma cadente
que descortina o verdadeiro sentido

minhas vidas são sequências
me encontro e me reencontro
prefiro o silêncio das plantas
encerro na pele cada estação.

quando a hora chegar
gravarei na memória
a abertura das asas ao sol
– findarei inundada de primavera.

“In-chuva-da” (sobre a janela chuvosa)

 

Chuva chegou

Quintal meu

Tão interno

Alagou-se.

Não deu goteira

Telhado marrom

Minha esperança

Alojou-se.

Chuva lavou

Flores no varal

A menina siriguela

Avermelhou-se.

Esfriou a casa

Quintal meu

Tão invernado

Alardeou-se.

 

poema da série

Libertinagem de revoadas solitárias

– pequeno ensaio que antecede o parto

escrito no Tocantins e em andanças durante a estação das águas do ano de 2007.)

 

 

Estripulia

tenho casos com ventos
sempre(!)
e com convicção avançada.

já sofri arrepios e chão gelado sob os pés
mas nunca estive nua num vendaval.
também nunca vi margaridas sem pétalas.

(os cabelos estalam em forma de redemoinho)
minha avó alertava,
mas eu só queria me esticar.