DIÁLOGO 1:
Cobra Rastejante:
— Ei, desce aqui!
Macaco Astuto
— Ei, sobe aqui!
E quando houve a tal transição, adivinha o que o macaco astuto disse ao encontrar a senhorita cobra rastejante?
Nada.
Eram tantas idéias, tantas palavras, que ele ficou observando, do alto de sua árvore, a senhorita cobra rastejante trocar de pele.
Na floresta eram muitos macacos, cada um no seu galho. E pelo chão, centenas de peles, muitas específicas de cada uma das estações do ano.
Senhorita cobra rastejante mudou sua dieta e adquiriu hábitos de tatu bola. Macaco astuto de tão astuto percorreu os mais belos galhos mas sempre sozinho. Ele tinha memória colorida desde a infância.
A floresta, Mãe Soberana, sabe que cobra, símbolo da cura, e macaco, símbolo da inteligência, podem conviver harmoniosamente apesar do Homem ter atribuído à cobra o símbolo da traição e ao macaco o estigma da extinção.
Essa é a verdadeira esperança: que um dia galhos e chãos possam estar em harmonia e que os símbolos tenham uma morte tranqüila.
DIÁLOGO 2:
Ela desabafa:
- Enquanto você fica aí, contando seus minutos gratuitos de solidão, meu descontentamento é quebrado então pela leve queda livre das folhas das árvores altas do nosso quintal. De repente, você não vê, mas abro-me para um sorriso suave que você nunca me deu, que não me toma muito tempo. Será a morte do nosso amor?
Ele pergunta:
- O que é a morte então? A você, com que se parece?
Ela responde:
- A morte (sutil aos meus olhos) das centenas de folhas desperta a poesia antes amedrontada dentro de mim. A morte intensa aos veios da árvore e do seu olhar cheio de escapulidas faíscas permite que eu desfrute da iluminação existente na natureza. A mim ela não se parece com nada. A morte do nosso amor nada tem a ver com a natureza.
Ele ri:
- Ora, o que estou fazendo aqui então, desfolhando seus mistérios, meus mistérios, sentindo as mortes que acontecem a todo momento dentro das coisas ao redor? Que vida sem sentindo! É claro que isso tem a ver com a natureza. Nosso amor está morrendo e você se importa mais com as folhas!
Ela explica:
- Eis aí um tipo de celebração que nossos corpos ainda não se permitiram. Achas que tudo está acabando com tristeza… Nada sabemos sobre o futuro, não sabemos o que nos aguarda. Eu só peço que não desista de fazer algo. Não critique meu gosto pelas árvores e quando voltar, traga-me café, por favor.
Se despedem aqueles dois.
Sem opção para aquele momento, ela casa-se com o cosmo, por mais que essa tal união seja breve.
Ele escuta música, escuta seus pensamentos, tenta transmiti-los ao ofício diário.
Ela casa-se e a idéia do outro assume um tipo de concretude que não necessita explicação.
Casa-se com a amplitude que os rodeia. Casa-se consigo mesma, com as folhas que caem, com as irmãs mais velhas, altas e verdes.
Daqui a pouco cada um partirá dentro de um tipo de retorno que não tem onda certa de transmissão.
Daqui a pouco os olhos verdes estarão mais uma vez soltos nesse mundo estranho e fantástico.