
Amy Alice Thompson - Bird Girls
Veste por hoje, um vestido amarelo e um laço de cetim nos cabelos. Por hoje também usa água de alfazema na nuca e sandálias baixas de tiras finas e brilhosas. A pele, de muito branca que é, cora à toa — o que sempre a deixa de saia justa diante de alguém mais esperto e audacioso. Tem cabelos avermelhados e pequenas sardas na altura do nariz, logo abaixo dos olhos. Bem, quero dizer mesmo que ela tem as maçãs do rosto avermelhadas e que deixa os meninos da rua com vontade de morder e comer até o caroço aquelas frutas saborosas. As frutas saborosas de Maria Rosa.
Morava numa casa de janelas brancas e que quando se abriam, ganhavam o mundo em um abraço. Na sala de estar, onde a cadeira da avó Rudith descansa, a carranca dos tempos em que os relógios da existência faziam barulho recebe todos os dias, o sol das sete e meia da manhã. Essa mesma sala já viu muita coisa entrar pela porta principal. Era costume Maria Rosa brincar com as bonecas e os grandes homens dos negócios financeiros passavam por ela sem ao menos tocarem dos móveis tão pequeninos da casa de mentirinha que todos os dias ela montava no chão da sala. Sonhava precocemente com sua casa, seus filhos e seu marido. Imaginou-o e tocou seu rosto durante muitos anos. Escolheu e renegou nomes de meninos e meninas. Se viu feliz numa vila de pescadores mas se sentiu sozinha no meio de tantos templos budistas. Pintou a fachada da casa de lilás umas 3 vezes e à medida que lia revistas de auto ajuda foi abarrotando os baús com restos de linhas, retalhos e vestidos floridos.
Veste por hoje, um vestido amarelo e os cabelos são presos à moda italiana. Tem pouca idade mas seus dias são cheios de afazeres. De vez em quando, tem tempo de fazer as unhas e sempre pensa demoradamente se passa vermelho ou algum clarinho, assim, da cor da unha, só mesmo pra dar uma boa impressão. Reclama do cavalo que anda empacando e a essas alturas, com tanta chuva, lama e deslizamentos, a cor nem será mais o branco. Que raios! Tudo hoje se inunda! Maria Rosa era vaidosa e cheia de tratos. Sempre que passava por perto de um espelho, ajeitava o corpo do vestido na cintura, desamassava as várias camadas de saia, desenrolando para fora os babados, os fuxicos e as organzas um tom mais claro que o forro. Passava com os dedos o batom vermelho pra não ficar muito escuro, que é pro pai não reclamar (menina nessa idade não sai de casa e nem fica conversando com meninos bem mais velhos que ela). Maria Rosa era vaidosa, mas hoje faz questão dos cabelos bem presos e com algum grampinho bonitinho enfeitando as madeixas de fios avermelhados. No sol, os cabelos de fogo refletem e a vizinhança, quando ela passa, se incendia com os fios avermelhados de Maria Rosa.
Um belo dia, Maria Rosa se apaixonou pelo menino loiro e de cabelos despenteados. Ele tinha as sobrancelhas grossas e era o melhor do time. Tinha nome de anjo, um irmão mais novo e era amigo de infância da sua melhor amiga. Maria na tenra idade começa a odiar a calça jeans que a deixa mais quadrada. Que grilo lhe dá pensar o motivo pelo qual a natureza não lhe deu um quadril de baiana. O cabelos para ela estava com os dias contados. Com ou sem a permissão da mãe, vai fazer sim aquela tatuagem, mesmo que ela também tenha de mentir que tem 18 e não 15 pra 16, como era de fato essa a sua idade. Mas ele, com seus olhos azuis haveria de ser dela, ou pelo menos enchê-la de beijos apaixonados. Não se lembra qual mesmo era função dos beijos naquela história, mas sabe que tinha lido um lance assim num daqueles horrendos Sabrinas. Olha e não acha nada que possa gostar. Quer esconder, esconde, quer correr e corre.
Numa dessas, correu para mais longe do que o normal por isso antes de sair pegou uma meia dúzia de vestidos e laços e pedras furta-cor e grampinhos de enfeitar os cabelos. Colocou tudo na mala e apagou a luz da sala de estar, da varanda e finalmente da fonte de água que fica no jardim por determinação da tia-avó-mística-pseudo-esotérica. Foi Maria Rosa passar balançando mesmo que derradeiramente e emburradamente os babados do vestido amarelo que os meninos ficaram de pau duro. Era só Maria Rosa balançar as madeixas de fios avermelhados com dias contados que a vizinhança se rebelava contra a insistência cinza do inverno.
O menino loiro e de cabelos despenteados casou-se com uma moça de nome Natália. E com ela, teve dois filhinhos de olhinhos azuis. Maria Rosa já se formou em Letras e continua com uma mania irritante de amarrar os cabelos à moda italiana. Continua com umas frescuras que dão dó. Quando termina seu turno, passa sempre na porta do Casablanca para ver a programação. Daí em seguida, tem uma vontade enorme de ficar comentando o destino de Amelie Poulain e desiste de assistir sozinha. Deixa pra depois de amanhã que assim dá tempo de convencer alguém a ir com ela. Esquece de passar na costureira pra pegar aquele vestido que havia mandado esticar a barra. Mas não vê a hora de se encontrar aquele homem que vez ou outra a transforma em puta. Não é dele que Maria Rosa gosta, mas de tantos outros gostou e não deu tantas notícias via cartas, que ficou meio insensível para essas coisas de homem, de ligar, de dar sinais. O menino loiro se chamava Pedro, sua esposa Natália, seus dois filhos Gabriel e João. Maria Rosa já formada em Letras, amarra os cabelos do mesmo jeito de sempre.
Acordava sempre cedo, por determinação da mãe. Só entrava na escola à tarde e já acumulava coisas a fazer antes disso. Tinha cachorro pra cuidar, galinheiro pra lavar, periquito pra alimentar, gato pra brincar. Garfos e facas pra enxugar, terreiro pra lavar, amigo do irmão pra engraçar, beijos em árvores sempre no final do dia. Como era doce a vida no colégio de freiras, os passos para ensaiar, as rezas para decorar, a sensação de que o lugar no céu estava garantido. Só detestava uma coisa, aliás, duas: se confessar ao padre e compactuar com o casamento falido dos seus pais. O resto, tudo, estava bom pra ela. A vida seguia mansa e cheia de cheiros bons de coisas gostosas para comer.
… Continua